O Boitatá Quântico ou
O Samba do Bobo Doido
por Yuri
V. Santos
O
físico inglês Adan Sopal estava muito preocupado com o rumo tomado pelas
pesquisas acadêmicas em todo o mundo e, conseqüentemente, com o futuro
da ciência. Após publicar um artigo de cunho satírico numa respeitada
revista científica - The True Science - decidiu aceitar o convite
da Universidade de Brasília para ali ministrar aulas durante dois semestres
letivos. O referido artigo era uma paródia aos inúmeros trabalhos publicados
pelo meio acadêmico-científico, que, com extrema pretensão, buscam demonstrar
algum sentido. Tal texto intitulava-se: Transcendendo o Paradigma:
em Direção a uma Hermenêutica Não-Probabilística da Onda-Quântica.
Usando uma linguagem carregada de metáforas grotescas, conceitos nebulosos
e analogias improváveis - assim como grande parte dos acadêmicos costuma
fazer - conseguiu engambelar todo mundo. Ninguém percebeu que aquilo não
passava duma piada. Afinal, aquele cientista excêntrico sempre se comportou
como se tivesse um rei na barriga. Os poucos que mantiveram um pé atrás,
em relação ao texto, não tiveram disposição ou mesmo gabarito para contestar
o venerado PhD. Por fim - quando ele próprio se desmascarou através doutro
artigo na revista The Science Fiction - retirou-se, fugindo da
tonelada de críticas e anátemas, cá para os trópicos.
Sopal
já havia passado uma temporada no Brasil, a convite da UNICAMP, e, portanto,
já tinha uma idéia do que lhe esperava. No fundo - guardadas as devidas
proporções, principalmente no que se referia às condições materiais -
ele sabia que o nível de nossas pesquisas equiparava-se ao do primeiro
mundo. Só não se lembrava do toque de exotismo encontrado nas saladas
científicas de alguns picaretas tupiniquins; certamente pra inglês - no
caso, ele - ver. Contudo, graças à atenção enviesada dada pelos sábios
do hemisfério norte a esses sábios autóctones, tanto labor resultaria
inócuo. Para Sopal, isto não deixava de ser um alívio. Pelo menos por
enquanto.
Na
primeira semana de sua estada em Brasília, fez uma visita ao coordenador
de pesquisa e pós-graduação da UnB. Agora que se tornara, segundo suas
próprias palavras, um "estudioso cultural amador", precisava inteirar-se
da produção daquela instituição. Pareceu-lhe banal encontrar teses em
andamento que tentavam provar, por exemplo: que Capitu realmente traíra
Bentinho; que Einstein e Wittgenstein eram "burros emocionais"; que a
filiação de Heidegger ao Partido Nacional-Socialista alemão modificara
essencialmente sua filosofia; que Moby Dick, de Herman Melville,
era uma releitura de Don Quijote, de Cervantes; que Gilles Deleuze
e Felix Guattari jamais disseram algo de significativo; que o historiador
latino Suetônio, autor de Os Doze Césares, tinha aversão a homossexuais;
que o governo brasileiro era a máxima expressão da teoria do Caos; e assim
por diante. Nas áreas de exatas e biológicas deparou-se com a mesma linguagem
hermética que tanto assusta os leigos. Um fato comum e, até certo ponto,
legítimo. Mas também encontrou a mesma ausência de relevância em praticamente
todos aqueles projetos. Fato este, a seu ver, ainda mais corriqueiro.
Não obstante, duas pesquisas bastante insólitas chamaram sua atenção:
uma do professor Fêndix, um geneticista reconhecido internacionalmente;
outra do professor Leves, um físico muito talentoso, mas imaginativo demais.
Resolveu, pois, estudar ambos os projetos, antes de contatar os respectivos
responsáveis.
Enquanto
caminhava pelo Instituto Central de Ciências, carregando um calhamaço
de textos sob o braço, Sopal ia refletindo a respeito do futuro da academia.
Talvez ele fosse um tanto radical e não reparasse em certos aspectos positivos
dessas instituições. Talvez o Edifício da Ciência, com seu fulcro e suas
proposições, já estivesse não apenas terminado - como há muito se especula
- mas, acima de tudo, necessitando de remendos, de um novo ar condicionado
e de novos caminhos que o ligassem ao dia-a-dia humano. Talvez já não
existissem realmente muitos passos a dar adiante, mais partículas elementares
a descobrir, novas leis a revelar ou até mesmo novos paradigmas para se
agarrar. A resposta estaria provavelmente neste caminhar para os lados,
neste percorrer todas as direções, às vezes em ziguezague, às vezes para
trás (com uma marreta na mão), tal como apregoavam alguns franceses malucos.
O fato de a maioria das pesquisas atuais se alicerçarem sobre teorias
e sistemas, há muito elaborados, confirmados e até combatidos, apenas
corroborava tal pensamento. Um grande salto adiante parecia improvável.
Agora seria o momento de testar o que ainda parecesse sólido, compreendê-lo
e pô-lo em prática. Dar a mão à comunidade, à cidade, ao homem da rua.
Não apenas através de cursos profissionalizantes - que, de modo geral,
apenas contribuem com o mercado - mas através de boa vontade. E
era essa boa vontade que parecia faltar no meio de tanta picaretagem.
Sim, Adan Sopal sabia ser um sonhador.
E
foi com tais considerações em mente que o físico achou-se em meio a uma
intensa aglomeração de estudantes, uma espécie de comício. Alguém, com
uma cadela nos braços, discursava:
"...pois,
afinal, vocês querem eleger como seu reitor um peão de obra, um figura
que nem sequer tem o segundo grau, ou um cientista maluco, cuja concepção
de ser humano é semelhante à idéia que tem do funcionamento de um computador?
Hem?"
"Joga
a bosta da Gení neles!", bradaram alguns partidários do orador, enquanto
os demais estudantes, indolentes, limitavam-se a observar tudo aquilo
como se fosse um espetáculo circense.
"Vou
repetir", prosseguiu o orador. "Nós estudantes devemos protestar contra
o peso ridículo que nossos votos têm nessa eleição e, também, contra o
nível dos candidatos. Não podemos deixar os professores e os funcionários
decidirem nossa vida." E erguendo a cadelinha acima da cabeça, gritou:
"Votem na Gení!!"
"Joga
a bosta da Gení neles!", repetiram os asseclas da candidata.
Ouviu-se
algumas risadas, a maioria dos passantes retomou seu caminho. O orador
continuava sua pregação:
"A
situação é a seguinte..."
Toda
aquela cena fez Sopal sentir-se indisposto e irritado. Odiava tais manifestações.
Sentiu que, se a universidade não se aproximava tanto das pessoas ordinárias,
estas mesmas pessoas, em compensação, já a haviam invadido. Uma tristeza.
Pelo menos a maior parte dos estudantes não aderira àquela demonstração
de anarquia política. Muito embora tal afastamento decorresse mais duma
inércia e dum individualismo característicos da juventude do mundo inteiro,
do que de consciência social. Não!, decidiu, a academia não deveria continuar
andando pros lados ou em círculos, mas sim seguir em frente. Era preciso
descobrir novos talentos e incentivá-los, prosseguir no desenvolvimento
do Edifício da Ciência. As possibilidades eram infinitas. A Ciência não
devia nada àquela gente vulgar! A aristocracia do espírito deveria imperar
na academia. Quem sabe ele até convencesse aqueles dois cientistas brasileiros
a participar da sua cruzada contra a vulgarização acadêmica. Antes, porém,
era necessário avaliá-los. Eles podiam muito bem ser representantes da
degeneração acadêmica.
Quando
chegou no apartamento funcional que lhe fora cedido pela UnB, Sopal teve
nova surpresa. Um rapaz com uma roupa de cores berrantes e repleta de
guizos o esperava. Espantado, o físico descobriu que aquele fora o último
bobo da corte do Palácio de Buckingham. Este explicou-lhe que, assim que
se viu desempregado, colocou um anúncio nos classificados do London
Times, oferecendo seus serviços. Foi, então, contratado pelo irmão
de Sopal.
"Seu
irmão me disse que eu seria útil para o senhor", prosseguiu o bobo num
inglês britânico. "Ah!, e eu também adoro feijoada..."
Era
só o que me faltava, pensou Sopal. Mais um bobo... E, no entanto, ao conversar
com aquele jovem, surpreendeu-se com a fina ironia explicitada por ele
em tudo o que dizia:
"Deixei
a família real porque me haviam roubado a função. Eu era o bobo deles,
é verdade, mas eles se tornaram os bobos da nação. Eu não queria fazer
metalinguagem..."
Persuadido
de que a presença do rapaz lhe seria vantajosa, Sopal o aceitou como seu
assistente. Só não pôde demovê-lo da convicção de que deveria seguir trajado
de bufão. Segundo o bobo, que se chamava Yorick, se assim não o fizesse,
acabaria sofrendo represálias a nível pessoal. Precisava enfatizar que
era apenas um personagem cômico, um encarregado de explicitar o ridículo
alheio.
"O.K.",
disse Sopal, resignado.
*
Na
manhã do dia seguinte, no seu laboratório da UnB, o professor Fêndix trabalhava
em suas experiências genéticas. Não via a hora de encerrar as atividades
daquele dia e retornar para a chácara onde morava. Lá, além de cultivar
as mais variadas espécies vegetais, colhidas em suas inúmeras viagens,
possuía seu próprio laboratório, no qual dava origem a novas espécies.
Sua mais recente criatura era um ser híbrido de duas espécies vegetais
(Selenicereus grandiflorus - a rainha-da-noite - e Impatiens
sultanii - a maria-sem-vergonha) e de uma ave da família dos vulturídeos
(um abutre do gênero Vultur). Com tão singular coquetel mendeliano, Fêndix
esperava obter uma planta arbustiva e carnívora que, abrindo as flores
à noite, pudesse devorar os ratos que infestavam sua chácara. Ela se chamaria
Selenicereus sultanii ou maria-da-noite. Apenas naquele dia poderia
confirmar tal previsão. As flores da jovem planta estavam a ponto de desabrochar.
"Posso
interrompê-lo por um instante?", indagou Sopal, à entrada laboratório.
"Claro,
claro...", disse Fêndix, gesticulando. "Entre." Cumprimentaram-se com
um aperto de mão. Fêndix inquietou-se. Já conhecia a reputação daquele
homem.
"May
I?", disse o bobo, aparecendo logo em seguida. O geneticista não conseguiu
identificar o que era aquilo ali na porta. Ficou boquiaberto sem
saber o que responder.
"Não
se preocupe", disse Sopal. "Ele está comigo."
Fêndix
abriu ainda mais a boca. Olhou espantado para o físico, que sorriu. Seguiu-se
um momento de constrangimento. Yorick, inocente qual criança, entrou saltitando.
"É
seu filho?", perguntou Fêndix.
"Não",
replicou em inglês o bobo, enquanto observava o conteúdo dum béquer. "Sou
o novo responsável pelo laboratório..."
"Ah",
fez Fêndix. Mas este pensava: só pode ser filho dele. E decidiu não lhe
fazer caso. Excentricidades britânicas, deduziu. Apenas isto.
Sopal
tomou assento:
"Estou
a par da sua pesquisa", afirmou, cruzando as pernas.
Fêndix
ficou repentinamente pálido. Retirou um lenço do bolso do jaleco e enxugou
a testa.
"Ah,
é?", disse.
"Sim",
continuou o inglês. "Achei muito interessante o seu trabalho de clonagem
de hortifrutícolas. Principalmente no que tange à melhoria genética de
algumas espécies, tornando-as resistentes a certas pragas."
O
geneticista respirou aliviado. Por um momento pensou que havia sido espionado.
O bobo, a um canto, tentava disfarçar o constrangimento por não compreender
a língua portuguesa. Vestido com um jaleco sujo, fazia caretas.
Os
dois cientistas conversaram por cerca de duas horas. Para surpresa de
Fêndix, o físico pareceu-lhe um homem digno e simpático. Concordou quando
este discorreu sobre a necessidade de evitar o colapso das pesquisas acadêmico-científicas.
Sentiu-se profundamente lisonjeado quando Sopal o apontou como um exemplo
a ser seguido. E seus olhos brilharam ao ouvir do físico que os gênios
ainda estão por aí, esperando o momento de dar as caras. O que ele acharia
da nova espécie híbrida que estava criando? Não pôde perguntar. Mas convidou
Sopal a conhecer sua chácara naquela mesma noite. Tinha muitas coisas
a lhe mostrar. O inglês, satisfeito, aceitou a invitação.
Quando
saíram do laboratório, Sopal e Yorick se dirigiram ao restaurante universitário,
o bandejão. O bobo estava cabisbaixo, parecia decepcionado consigo mesmo.
"O
que é que você tem?", indagou o físico.
Yorick
explicou-lhe que não poderia fazer suas intervenções e tiradas satíricas
sem conhecer a língua daquelas pessoas. Sentia-se um bobo.
"Mas
você não é um bobo, meu amigo?"
"Um
bufão nunca é um verdadeiro bobo", respondeu. "Ele apenas mostra o quanto
as pessoas podem comportar-se como otárias. Ele é um tipo de espelho."
Sopal
sorriu. Afeiçoava-se por aquele rapaz:
"Ora,
não se preocupe, Yorick. Enquanto vai aprendendo esse idioma, você pode
continuar intervindo em inglês. Algumas pessoas entendem."
"Não
estou tão certo disso. Aquele tal de Fêndix ficou muito alterado quando
o arremedei comportando-me como um cientista louco. Pensei que fosse voar
no meu pescoço. Se ele tivesse entendido o que eu dizia não teria ficado
daquele jeito."
"Bem",
disse Sopal, franzindo a testa. "Vamos comer. Talvez sirvam uma feijoada
hoje..."
O
bobo abriu um sorriso instantaneamente:
"Vamos!"
Uma
vez no restaurante, outro contratempo: os partidários da candidatura de
Gení à reitoria, continuavam fazendo alarde ali dentro.
"My
God!", murmurou Sopal.
Já
o bobo, ao ver todo aquele movimento, sentiu-se em casa. Saiu por entre
os estudantes fazendo acrobacias, dando saltos mortais e retirando ovos
das orelhas femininas que por ali passavam. Se não podia falar com a boca
falaria com o resto do corpo. Começou, então, através de mímicas, a imitar
um comensal manco carregando uma bandeja imaginária. Os estudantes, funcionários
e professores riram sem mais poder por pelo menos quinze minutos.
"Quem
é esse cara?", perguntou um.
"Acho
que é aquele maluco da Música...", responderam.
Por
fim, faminto, Yorick uniu-se a Sopal numa mesa.
"Cadê
a feijoada?", indagou, investigando a própria bandeja.
"Acho
que só vão servi-la amanhã", respondeu o físico.
"Aaaaaaaah!!!!",
saiu gritando o bobo.
Todos
o olharam curiosos. O que faria agora? Yorick, pois, saltou a roleta,
tomou a cadela Gení das mãos do estudante que discursava e voltou para
o refeitório.
"Eu
quero carne!", bradou em inglês, erguendo a cadela à frente da boca. Poucos
o entenderam. Percebendo isto, começou a gritar com forte sotaque: "Feijoada!
Feijoada!"
Muitos
riram, outros ficaram enojados. Entre estes Sopal, que, por seu turno,
foi saindo de mansinho do restaurante. Já não parecia uma boa idéia ter
contratado aquele bufão.
Yorick,
a essa altura dos acontecimentos, já colocara a cadelinha pra comer da
sua bandeja. Atraído pelos gritos e risadas, alguns seguranças do restaurante
foram averiguar o que se passava. Quando solicitaram ao bobo que se comportasse,
este levantou-se com estrépito e, enquanto apontava para a bandeja, tornou
a gritar a plenos pulmões:
"Dog
food! Dog food!"; e todos riram e aplaudiram.
Chicão
- o enorme, bigodudo e musculoso chefe da cozinha - apareceu para ver
o que estava acontecendo. Quando lhe contaram que alguém estava dizendo
que sua comida era comida de cachorro, mordeu o lábio inferior e perguntou
com gravidade:
"Quem
é o sicrano?"
Horácio,
um dos cozinheiros, apontou para o bobo, que, no seu canto, comia da bandeja
junto com a cadelinha.
"Vem
cá!", rosnou Chicão, pegando Yorick pela nuca.
"What
are you doing, fellow?!", soltou o bobo, agitando as pernas no ar.
"Tu
vai vê o que eu du com você!"
"Eita",
exclamou Horácio. "Fica calmo aí, Chicão, qui tá todo mundo olhando..."
Uma
estudante de Letras-Inglês aproximou-se tentando evitar o pior. Servindo
como intérprete e defensora, transmitiu a Chicão os pedidos de desculpa
do bobo. Este ainda a fez acrescentar aos autos seu desejo de comer feijoada.
O cozinheiro deu um sorriso de poucos amigos:
"Então
o gringo quer feijoada... Manda ele voltar aqui hoje às oito da noite";
e piscou um olho pro colega Horácio.
*
Naquela
tarde, Sopal aproveitou a ausência de Yorick para conhecer Leves, o professor
de física. Sem o bobo poderia ter um diálogo mais substancial. Dirigiu-se
ao departamento de física. Antes mesmo de entrar na sala do professor,
ouviu um solo de guitarra. Bateu várias vezes na porta, sem ser atendido.
Resolveu entrar e se deparou com Leves que, de olhos fechados, tocava
um blues do Muddy Waters. Três gatos andavam pela sala.
"Hum,
hum", pigarreou o inglês.
Leves
arregalou os olhos:
"Caramba!
Me desculpe, eu não tinha te visto. Só um momento...", e, para embaraço
do visitante, executou o restante da música. Três minutos que pareceram
uma hora. "Pronto. O senhor deseja...?"
"Eu
sou Adan Sopal. Gostaria de tomar alguns minutos do seu tempo."
"Claro!
Vamos, sente-se, é um prazer conhecê-lo...", e sentou-se com um gato no
colo. Estava pasmo: um inglês que não marca hora? Incrível!
"Bem...",
e Sopal principiou sua ladainha de sempre, desta vez com maior empolgação,
afinal era uma conversa de físico pra físico. Contudo, durante todo o
tempo, Leves limitou-se a sorrir e a dizer um sim ou um claro, vez ou
outra. Decepcionado, percebeu que estava diante não apenas de um gênio,
mas também de um desses ingleses arrogantes, conservadores e com mania
de apocalipse. Alguém com um rei doente na barriga, por assim dizer. Sim,
era evidente que a academia vive momentos de crise e até mesmo de impasse,
pensou. Mas isto era uma contingência, haveria de passar. Não adiantava
virar um dom-quixote da ciência. Ainda mais um físico talentoso como Sopal.
"Eu
queria que você me explicasse sua pesquisa", acrescentou o inglês, cortando
os pensamentos do professor. "Seu projeto não me pareceu muito claro..."
"Você
gosta de gatos?", perguntou Leves, tangenciando a conversa.
O
visitante coçou a cabeça:
"Bem...
Não... Não muito..."
"Deixa
eu lhe apresentar alguns. Esse é o Múon, este aqui é o Glúon e aquele
pretinho é o Bóson."
"Olha",
interrompeu Sopal, "colocar nomes de partículas elementares em gatos não
faz de alguém um grande físico. Se você não quiser me falar do seu trabalho,
eu entenderei..."
Leves
sorriu:
"O.K.,
O.K., eu só queria deixá-lo mais à vontade, apresentando minha família...
É... Você quer saber...?"
"Sua
pesquisa", disse o inglês, visivelmente impaciente.
"Claro,
minha pesquisa. Bom, eu acabo de desenvolver um aparelho revolucionário..."
Sopal,
incrédulo, arqueou as sobrancelhas: "Hum."
"E
não posso esconder o quanto devo ao senhor tê-lo construído..."
"A
mim? Que aparelho é esse?", indagou, curioso.
"Eu
criei uma máquina que torna possível a um corpo extenso dar saltos quânticos!"
"Um
teleportador!!", fez o inglês, levantando-se. "Como o da Guerra nas
Estrelas!?"
"Não",
corrigiu Leves. "Como aquele da Jornada nas Estrelas."
Sopal
ficou muito irritado:
"Isso
é uma brincadeira de mau gosto! Eu jamais escrevi sobre tal assunto!"
Agora
foi Leves que se surpreendeu:
"Claro
que escreveu. Está bem aqui...", disse, estendendo um exemplar da revista
The True Sciense.
"Mas
isto é uma piada, uma paródia que fiz aos artigos vazios que essas porcarias
de revistas costumam publicar."
"Piada
ou não, o senhor estava corretíssimo..." "Isto é um absurdo...", disse
Sopal.
"Eu
posso provar. Esta noite eu lhe farei uma demonstração com meu Boitatá
Quântico..."
O
inglês pensou por alguns segundos. Outro maluco? Boitatá Quântico?!
"Já
tenho compromisso, mas..."
E
combinaram que iriam juntos à casa de Fêndix. Este, ao ser indagado se
um novo convidado o incomodaria, respondeu que não, muito pelo contrário,
seria ótimo. Para Sopal, aquele tal de Leves seria apenas um substituto
para o bobo, que não tornara a encontrar. Tudo o que ele, Sopal, escrevera
no artigo era inconsistente, não poderia servir de respaldo teórico para
nenhum projeto de pesquisa. Qualquer físico sabe que uma onda quântica
é uma função de probabilidade e, portanto, não pode ser controlada. Os
tais "corpos taquiônicos", citados por Leves, não existem, pois nenhum
corpo extenso pode viajar mais depressa que a luz. Essa história de um
aparelho que emite um feixe de ondas quânticas, criando um padrão holotaquiográfico
de um objeto qualquer, é pura conversa pra rainha dormir. Aquele físico
brasileiro era definitivamente maluco. Daria muitas risadas aquela noite.
Imagine: um feixe de ondas quânticas (que Leves chama de Boitatá Quântico)
transportando um "corpo taquiônico" através dum atalho no além do Espaço-Tempo
- os buracos de minhoca ou, segundo ele, buracos de Boitatá
- para uma região distante, dentro dum tempo-imaginário. Loucura! Se tudo
isto não fosse tão complicado para os leigos, mandaria essa idéia para
um desses programas de TV em que os apresentadores adoram piadas infames
e temas escatológicos.
*
O
bobo passou grande parte daquela tarde procurando Sopal. Como não o encontrou,
abordava qualquer um que lhe cruzasse o caminho, pedindo que lhe ensinasse
português. Sentia-se muito desorientado para fazer gracinhas e chistes.
Felizmente, encontrou um estudante de direito muito atencioso que lhe
ensinou algumas palavras chaves: Please era cuzão; Good
evening era foda-se; Thank You era filho-da-puta;
I'm sorry era vou te comer; e etc. Como era sonoramente
agradável o português! Gostou sobremaneira da palavra cuzão. Parecia
francês. "Cuzão", repetia. E ficou praticando a nova língua durante muito
tempo. Quando se tocou do adiantado da hora - eram 7:42 h. - dirigiu-se
imediatamente para o bandejão, que já estava fechado. Ficou dez minutos
parado diante da porta de acesso à cozinha. Precisava esperar as oito
horas, ser pontual. Era bobo, mas também era inglês.
"Entra
aí, rapaiz", disse Horácio, abrindo a porta. "Vamo logo que a gente tem
que ir embora."
"Foda-se",
disse Yorick.
Horácio
arregalou os olhos. Crispou as mãos. Mas... fazer o quê? Sua sina era
servir, não era? Melhor era engolir mais esse sapo. E levou o bobo até
a cozinha, onde estava Chicão.
O
chefe da cozinha, felizmente, estava bastante loquaz e quase não deixava
o bobo falar. Mudara completamente desde a hora do almoço, era a amabilidade
em pessoa. Perguntava muitas coisas, tais como: de onde era o bobo, quantos
anos tinha, onde morava aqui no Brasil, se gostava de Brasília, e assim
por diante. Cantarolava sem parar um sambinha que, segundo ele, seria
ideal para o bobo aprender: Canta, canta, minha gente/ Deixa a tristeza
pra lá/ Canta forte, canta alto/ Que a vida vai melhorar... Yorick,
obviamente, não compreendia nada. Apenas deixou-se levar até a mesa, onde
recebeu prato, talheres, guardanapo, etc. Finalmente comeria sua feijoada.
Antes, porém, Chicão lhe disse:
"Vai
te custar oitenta reais, entendeu?"
"Excuse
me?"
"Oitenta
dólares - Oi-ten-ta-dó-la-res. Entendeu?"
Desconfiado,
Yorick tirou a carteira do bolso e retirou cerca de dez reais.
"Nãnanina",
disse Chicão, grosso. "Oitenta!"
O
bobo, vexado, entregou a carteira pro cozinheiro e viu-o retirar uns cem
dólares dali. Horácio assistia a tudo impassível. Quando Yorick recebeu
novamente a carteira, tudo voltou ao estado anterior. Chicão tornou-se
um enorme sorriso bigodudo e ambulante. O bobo não via a hora de comer
e sair fora.
"Humm...",
gemia.
Minutos
depois, Horácio apareceu com uma grande panela na mão. Chicão vinha logo
atrás. O cheiro era delicioso.
"Espero
que esse cabra termine logo", resmungou Chicão.
Quando
Horácio terminou de encher o prato, Yorick agradeceu:
"Filho-da-puta."
Num
átimo, Chicão agarrou-o pelos cabelos:
"O
qui é que o cabra safado disse? Hem?", gritou, levantando-o no ar.
O
bobo ficou muito assustado, não entendia aquela reação irada. Quando viu
uma faca na outra mão do cozinheiro, desesperou-se. Começou a suplicar:
"Cuzão,
cuzão, vou te comer, cuzão..."
"Aié?
Toma sua peste!", e Chicão passou-lhe a peixeira pela garganta. Horácio
ficou estarrecido:
"Endoidou,
homi! Qui é que a gente faz com ele agora?!"
"Já
ti digo o que a gente faz com esse sangrado", e limpou a peixeira no avental.
"Ele não queria feijoada? Vai ter feijoada!"
*
Enquanto
isso, Sopal, Leves e Fêndix chegavam à chácara deste último. Haviam conversado
bastante durante o trajeto. O geneticista era o mais animado. Adorava
receber visitas em sua casa. Leves, ainda na UnB, havia colocado uma caixa
pesada no porta-malas do carro. Segundo ele, ali dentro estava o Boitatá
Quântico. Sopal não conseguia desfazer seu olhar cínico. Ali da chácara
avistava-se todo o Plano Piloto, uma visão magnífica.
"Entrem,
entrem...", disse Fêndix, abrindo a porta de casa. "Fiquem à vontade.
Vocês querem beber algo? Um vinho?"
Sentaram-se
cada qual com seu copo na mão. Leves havia trazido a caixa pra dentro
da casa.
"Onde
está sua planta?", perguntou Sopal.
"Tá
lá atrás, na estufa anexa ao laboratório. Mas que tal se a gente ver primeiro
essa geringonça do Leves?"
Leves
retirou o aparelho da caixa e começou a montá-lo sobre a mesinha de centro.
Retirou do bolso do casaco um saquinho plástico:
"Aqui
dentro tem uma cerâmica especialmente desenvolvida para o Boitatá. É nela
que o padrão holotaquiográfico fica armazenado antes do salto quântico."
"Hmff...",
suspirou Sopal.
"O
que é que a gente vai teleportar?", perguntou Fêndix.
"O
que eu não sei, mas sei pra onde", disse Leves.
"Pra
onde?"
"Pro
trono da rainha da Inglaterra..."
"Rruerck!",
ouviram.
"Que
diabo é isso?", perguntou Fêndix.
Sopal
sorriu:
"Acho
que é a minha barriga. A comida de vocês não me faz muito bem."
"Não
esse barulho", continuou Fêndix. "Esse outro lá nos fundos..."
Efetivamente,
um som estranho vinha do fundo da casa. O geneticista parecia preocupado:
"Já
regresso", disse.
Os
dois físicos ficaram em silêncio por alguns instantes. Leves sabia que
o inglês não tragava seu invento. Mas dali a pouco ele se surpreenderia,
com certeza. Ligou o engenho na tomada. Apontou a entrada do Boitatá para
um lado. Agora era só apertar o botão vermelho.
"Aaaaah...
Me solta... Socooorro...", gritou Fêndix, do fundo da casa.
Os
visitantes, assustados, correram na direção dos gritos. O que seria aquilo?
Quando chegaram ao laboratório depararam-se com uma cena terrível. A sala
estava inteiramente tomada por uma enorme trepadeira cheia de espinhos.
Suas flores pareciam bicos rapinantes e atacavam tudo o que viam pela
frente. No chão, próximo a um balcão carregado de equipamentos sofisticados,
estava o corpo nu de Fêndix. A planta abrira um buraco em seu abdômen
e parecia comer pedaços do seu fígado.
"Meu
Deus!", exclamou Leves. "Vamos sair daqui!"
"Nããããoo!!",
gritou alguém atrás do balcão. "Me ajudem!"
Armados
com um cutelo e um facão, encontrados na cozinha, Sopal e Leves abriram
caminho por entre os ramos e gavinhas da feroz trepadeira. Quando atingiram
o local de onde partiam os gritos, encontraram, não sem grande surpresa,
o próprio professor Fêndix, vestido e tudo. A planta tentava estrangulá-lo.
Foi com custo que o tiraram dali.
"Mas,
Fêndix, quem era aquele lá no chão?", indagou Sopal, confuso.
"Era
meu clone", respondeu o geneticista.
"Como
é que é?!", perguntaram os físicos ao mesmo tempo.
"Meu
clone...", tornou ele. "Mas não se preocupem, ele não tinha cérebro. Era
uma espécie de banco de órgãos particular. Era mais vegetal que essa planta
maldita..."
Os
outros dois mal acreditavam no que ouviam.
"Acho
que algo deu errado e minha maria-da-noite virou uma rainha-sem-vergonha,
ou seja, uma Impatiens grandiflorus."
"Meu
Deus!", exclamou Leves. "Você é o que costumam chamar de cientista maluco..."
"Rruerck",
tornou a barriga de Sopal, que, boquiaberto tentava ver dali da porta
o corpo do clone:
"É
fantástico!!", disse ele. "Você é incrível, Fêndix!"
"Como
assim, Sopal?!", espantou-se Leves. "Não me diga que você acha tudo isso
uma vitória da Ciência, do conhecimento? "
"Claro
que é! Não está claro pra você?"
Leves
colocou as mãos na cabeça: "Não acredito! Vocês dois são a vaidade científica
em pessoa! Deviam estar acorrentados no lugar daquele Prometeu clônico
desmiolado. Isso lá é conhecimento que se propague? Vou agora mesmo destruir
meu Boitatá Quântico! Vocês não merecem vê-lo", e saiu na direção da sala.
Sopal
riu. Fêndix mantinha-se calado.
"Rruerck",
repetiu a barriga de Sopal. "Que fome!", disse ele.
"Aarrgh",
fez a rainha-sem-vergonha, agarrando-o pelos pés.
"Leves!",
gritou Fêndix, pegando o facão. "Acode aqui!"
A
planta rapidamente dominou o corpo do inglês. Parecia mais forte, talvez
por ter se alimentado de carne humana. Sufocado, Sopal nem sequer conseguia
gritar. Os outros dois faziam o possível para soltá-lo. Mas a planta parecia
imbatível. Conseguiu rapidamente perfurar o abdômen de Sopal. Leves recuou,
enojado e amedrontado. Fêndix fez o mesmo:
"É
melhor a gente se afastar", disse.
De
repente uma cena aterradora. De dentro da barriga de Sopal saiu um homúnculo
correndo. Vestia uma capa vermelha e tinha uma coroa dourada na cabeça.
Leves e Fêndix, estarrecidos, saíram no encalço do estranho ser, que,
por sua vez, já transpusera a porta dos fundos da casa. Quando chegaram
na sala, viram o reizinho subir numa cobra luminosa que saia de dentro
do aparelho de Leves. Era o Boitatá Quântico.
"God
save my Kingdom!", berrou o anão, desaparecendo em seguida.
Os
outros ficaram paralisados.
"Aquela...
aquela coisa... foi pro trono da rainha da Inglaterra", murmurou Fêndix.
"Negativo",
replicou Leves. "O aparelho ainda não tava regulado pra isso. Hoje de
manhã, eu o usei pra mandar lixo pro espaço. Aquela coisa deve estar em
alguma órbita da Terra agora. Foi pro espaço..."
O
geneticista fez uma careta:
"Por
que todos os astronautas tem de ser gringos? Nunca vi alguém do hemisfério
sul ter esse privilégio..."
Encararam-se.
Em menos de dois segundos começaram a gargalhar histericamente. Realmente
não dava pra imaginar um astronauta brasileiro. Ou dava? [1]
*
No dia seguinte, uma notícia chocante percorreu os corredores da UnB.
A cadela Gení fora eleita reitora da universidade. Nem mesmo os estudantes
que lançaram sua candidatura ficaram satisfeitos com aquilo. Será que
as pessoas não haviam notado que aquilo fora um mero chiste, uma gozação?
"O
professor Sopal tem razão", disse o coordenador de pesquisa e pós-graduação.
"É o fim do mundo... do mundo acadêmico."
Mas
Leves nem reparava nesses acontecimentos. Não conseguia tirar as imagens
da noite anterior da cabeça. Nem ao menos se lembrava do artigo que deveria
enviar naquele dia àquela publicação científica de Recife, a The Chico
Sciense. Quantas coisas horríveis testemunhara... Ele e tampouco Fêndix
sabiam que providência tomar. Talvez não tomassem nenhuma.
Quando
entrou no bandejão, nem sequer ouvia os comentários quebrados referentes
ao resultado das eleições universitárias. Como um sonâmbulo, pegou a bandeja
e entrou na fila. Só caiu em si quando, já na mesa, percebeu que lhe haviam
servido feijoada. Ficou enojado. Depois do que presenciara, jamais tornaria
a comer qualquer tipo de carne. Todas lhe lembravam carne humana. Nauseado,
olhava ao redor. Pessoas sentadas, de pé, na fila, servindo comida. Todas
feitas de carne, desde o estudante de medicina ao seu lado àquele homem
que despejava a feijoada na bandeja das pessoas. Não, nunca mais...
"Chicão,
vem cá, rapaiz", chamou Horácio, com a concha cheia de feijoada na mão.
"Dá uma olhada nisto aqui."
"Que
qui foi?"
"O
crânio, rapaiz", disse mostrando a concha.
"O
quê?!"
"A
caveira!, homi, a caveira!"
"Ah",
fez Chicão pegando a concha. "Deixa-me ver. Ah, pobre Yorick! Conheci-o,
Horácio. Era um moço duma graça infinita, duma invulgar fantasia. Onde
estão agora os teus gracejos, os teus ditos, as tuas canções, as tuas
brincadeiras, que tão estrondosas gargalhadas provocavam à mesa? E agora?
Nem um simples dito para troçar do teu próprio esgar? Já não tens queixo?
Vai procurar a minha senhora e diz-lhe que, por mais pintura que ponha
no rosto, é a este estado que tem de chegar. Fá-la rir com isso. Peço-te,
Horácio, dize-me uma coisa." [2]
"O
que é, Chicão?"
"Será
que esses estudantes pensam que só porque a gente serve eles, a gente
é ingnorante?"
"Talvez,
rapaiz, talvez..."
Chicão
rangeu os dentes:
"Eles
que não se metam comigo. Ingnorante, pois sim!..."
_______________
Nota:
O autor pretende explicitar aqui sua perplexidade diante do rumo tomado
pelo conto. Rei na barriga?! Deve ter sido o café degustado durante a
viagem de escrever...
(Conto extraído de A Tragicomédia Acadêmica
- Contos Imediatos do Terceiro Grau.)
*
* *
[1]
Este conto foi escrito em 1996. Nada como ser surpreendido pela realidade...
[2]
Para inglês ler: "Let me see. Alas, poor Yorick! I
knew him, Horatio. A fellow of infinite jest, of most excellent fancy.
(...) Your gambols, your songs, your flashes of merriment that were wont
to set the table on a roar? Not one now to mock your own grinning? Quite
chop-fallen? Now get you to my lady's table and tell her, let her paint
an inch thick, to this favour she must come. Make her laugh at that. Prithee,
Horatio, tell me one thing." (Vide Hamlet, V.I )
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