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Frida
uma singela homenagem a
Paulo Coelho
por Yuri
V. Santos
Desde
criança Frida sempre se interessou pelos mistérios que cercam
a vida humana. A morte, a alma, a magia, a reencarnação,
a astrologia, Deus, a cabala, o sufismo, os ovnis, a alquimia, o intricado
funcionamento de um computador, tudo a deixava intrigada e deslumbrada
ao mesmo tempo. Mas o que mais atiçava sua curiosidade era descobrir
quem ela realmente era - o mistério do autoconhecimento. Quando
pequenina, Tábatha, sua mãe, lia estórias maravilhosas
de fadas, princesas, bruxas, príncipes e dragões para ela.
Aos quatro anos, Frida tinha certeza: era uma princesa. Aos oito começou
a achar esse negócio de princesa uma chatice, ficar ali a eternidade
toda, sem fazer nada, esperando um príncipe cair dos céus.
Que bobagem! Legal mesmo era ser fada, ter asas, voar e fazer mágicas
com uma varinha de condão. Na puberdade descobriu que o mundo todo
era uma merda, a começar por seus pais, que não quiseram
deixá-la fazer uma tatuagem nas costas. Desistiu de ser fada e
percebeu que seria foda. E só então descobriu o que realmente
era: uma bruxa.
Agora
Frida passava os cinzentos dias de sua adolescência trancada no
quarto, ouvindo Enya e The Doors, queimando - entre outras
coisas - incenso e lendo tudo o que lhe caia nas mãos sobre feitiçaria
ou qualquer outro tipo de crença ou ritual mágico pagão.
De tanto imiscuir-se nesse gênero de estudo, decidiu, à época
do vestibular, ingressar no curso de Antropologia da Universidade de Brasília.
Não poderia ter feito melhor escolha. Aquele curso - o estudo do
ser humano - contribuiria na lapidação de sua alma e traria
à tona seus mais ocultos poderes.
Samantha,
sua avó, indignou-se:
"Por
que é que essa menina não pára com essa mania atávica
e não vai estudar algo que presta? Como, por exemplo, nutrição
ou pedagogia?"
"Ora,
mamãe...", contestava Tábatha. "Os tempos mudaram, deixa
a menina fazer o que bem entender."
"Humf!
Se o James ainda estivesse vivo...", resmungava a velha.
Coloridos
foram os dias da juventude de Frida. Viajou muito. Geográfica e
psiquicamente. Viveu com os índios Krahô. Aprendeu a fazer
cerâmica e outros gêneros de artesanato. Aproveitando o grande
espaço disponível, colocou vários brincos em cada
orelha. Tornou-se uma experta em culinária natural e macrobiótica.
Conhecia a Chapada dos Veadeiros e a costa brasileira como as ervas do
quintal da sua casa. E o principal: aprendeu a conectar-se com as energias
do cosmos e, assim, descobriu que não existem coincidências
e acasos. Tudo na vida é significativo.
"Acho
melhor você não pegar esse avião."
"Ué,
Frida, por que não?"
"Eu
acabo de ver uma borboleta azul..."
"E
daí?"
"Vai
por mim", concluía Frida com olhar penetrante, "pega outro avião."
Ninguém
contrariava Frida. Não na sua frente, claro, nem todos são
néscios. E sim, ela parecia ter acesso aos arcanos e segredos do
universo. Parecia...
Mas
foi no primeiro domingo de dezembro do ano de 1994, que, na feira de trocas
de Olhos d'Água, Frida teve uma revelação. Enquanto
caminhava por entre os variegados objetos expostos na feira, seus olhos
se encontraram com os olhos de um coelhinho cinza-azulado. Alguém
lhe dissera, certa feita, que dificilmente um coelho encara uma pessoa.
Aquilo lhe pareceu tanto mais significativo se se tomasse em conta o que
tinha em mente naquele exato instante: o mistério do relacionamento
homem-mulher. Havia já algum tempo que Frida tencionava conhecer
o homem com quem experimentaria todos os arcanos do amor e do sexo, atingindo,
assim, uma epifania orgástica. E nalgumas culturas - ela sabia
- o coelho era símbolo de fertilidade. Era óbvio: aquele
bichinho a levaria de encontro ao futuro companheiro. Trocou, pois, sua
bolsa otavaleña de lã de alpaca, duas maricas - uma de osso,
outra de durepox - e um chaveiro do Pato Donald pelo animal, com o qual,
aliás, afeiçoou-se rapidamente. Batizou-o de Paulo.
No
dia seguinte, ao final da tarde, Frida estava sentada à beira da
estrada com Paulo, o coelho, tentando conseguir uma carona pra Brasília.
Um Opala negro, ano 78, se aproximava com extrema velocidade - negando
aparentemente qualquer possibilidade de carona - quando, de súbito,
o coelho pulou para o meio da pista. A moça gritou, colocando as
mãos na cabeça. Era o fim. O carro, no entanto, freiou a
poucos centímetros da cabeça do leporídeo, o qual,
como se nada houvesse ocorrido, olhava tranqüilamente para Frida.
Antes que ela abandonasse seu estupor, um rapaz de seus vinte e poucos
anos, alto, pálido, cabelos desgrenhados, vestido de preto dos
pés à cabeça, saltou do carro, apanhou o animalzinho
e dirigiu-se calmamente até a garota.
"Não
fica preocupada", disse o rapaz, colocando o bicho no colo da moça.
"Ele tá legal."
Frida,
que já abandonava aquela terrível paralisia, paralisou-se
novamente. De paixão, porém.
"Eu...
eu... quer dizer..."
"Você
quer uma carona?"
"Cla-claro,
quero sim"
Aleister
Crowley de Souza era extremamente taciturno. Não dizia senão
o necessário.
"Você
não vai levar seu coelho, Frida?"
"Hã?!
Claro... claro... que cabeça..."
Enquanto
Aleister mantinha os profundos olhos negros fixos na estrada, Frida observava-o
timidamente, a princípio, depois diretamente. Ela já o conhecia,
vira-o na universidade, onde, certamente, também deveria estudar.
Notou que ele trazia tatuados, nas costas da mão direita, um número
- 999 - e, ao lado, uma serpente enrodilhada de cabeça pra baixo.
Muito esquisito.
"Bacana
sua tatuagem..."
Ele
permanecia calado. Nem um sorriso sequer. Era estranho, mas aquilo deixava
a garota ainda mais excitada e curiosa. Uma hora depois, contudo, ela
desistiu de entabular qualquer gênero de conversa. Sua excitação
represada foi aos poucos se transformando em irritação.
E, pra piorar, Paulo, o coelho - por uma razão qualquer - não
parava de se mexer no seu colo.
"Paulo,
se você não ficar quieto, vou te jogar pela janela!"
Aleister
olhou-a surpreso:
"Seu
coelho se chama Paulo?"
"É;
por quê? Alguma coisa errada nisso?"
Aleister
desatou a rir sofregamente. A tensão de Frida, até então
reprimida, também escapuliu na forma de risos um tanto nervosos,
é verdade, mas, enfim, risos. E qual seria o motivo de tanta graça?
Aleister meteu a mão por baixo do banco que ocupava, e retirou
dali um livro que entregou à passageira. Era um livro com narrativas
medievais de perseguições às bruxas, sendo que uma
delas discorria sobre um certo coelho chamado Paulo, o qual, na verdade,
era um feiticeiro espanhol condenado a viver sob tal forma animalesca
por ter infringido nas leis da magia. Ele havia divulgado conhecimentos
secretos.
"Deve
ser ele", disse Aleister, apontando o animalzinho.
Frida
quis lhe dizer que fora ela quem dera aquele nome pro coelho, mas calou-se.
Melhor seria esticar a conversa e tentar conhecer intimamente aquele sujeito.
Afinal, descobrira aquele elo fortíssimo que os unia: a magia.
"E
ele poderia voltar à forma humana?", perguntou ela.
"Sim",
respondeu Aleister. "Mas para isso ele precisaria realizar o desejo de
uma pessoa..."
"Como
assim?", fez Frida, surpresa.
"Não
tenho a menor idéia", disse ele; e sorriu.
Ficaram
em silêncio por alguns momentos.
Ela:
"Que curso você faz lá na UnB?"
"Não
sou aluno, sou professor de Antropologia da Religião."
Frida
não pôde esconder seu espanto:
"Mas
você parece tão novo!"
Ele
esboçou novo sorriso:
"Tenho
vinte e nove anos. No ano passado, na Espanha, defendi minha tese de doutorado.
Foi um estudo que fiz a respeito dos grimoires - livros de feitiçaria
e de magia branca ou negra."
Os
olhos de Frida brilharam. Voltou a sentir-se uma princesinha diante daquele
príncipe. Afinal, à bruxa, um príncipe o bruxo lhe
parece.
"Aleister...?"
"Hum."
"Eu
estou perto de me formar. Será que você..."; e calou-se.
"O
que é? Pode dizer."
"Olha",
começou ela, acanhada. "Eu já tenho uma idéia pra
fazer minha monografia..."
"E...?"
Frida
estava tensa:
"Será
que você não quer ser meu orientador?"
"Claro,
Frida. Será um prazer."
A
moça ficou subitamente molhada. E também Paulo, o coelho.
A janela do carro estava aberta e uma repentina rajada de chuva entrou
por ali.
A
monografia de Frida trataria da analogia existente entre o poder de um
líder de igreja, ou seita religiosa, e o de um mago de tempos passados,
o qual, abusando da boa vontade alheia, fazia intenso proselitismo entre
as várias camadas da sociedade. Não que não houvesse
pessoas que realmente se beneficiassem com os dogmas impostos. Segundo
Frida, neste caso, o único fato relevante era se havia fé
sincera por parte de cada seguidor. Obviamente, algo difícil de
se averiguar. Sim, mas o ponto central do estudo era: todo líder
de movimento religioso aspira, na verdade, à riqueza e principalmente
ao poder, ainda que ele próprio não tenha - ou se recuse
a ter -consciência disso. Devido a tais fatos, escolheu como epígrafe
para o trabalho um trecho do Fausto de Goethe, uma frase de Mefistófeles,
o diabo: "Sou parte daquela força que eternamente quer o mal, mas
que eternamente obra o bem."
Por
orientação de Aleister, a estudante começou a freqüentar
os cultos do Templo Mundial do Reino Dividido Ltda. A princípio,
Frida sentia-se qual agente secreta. Entrava discretamente, sentava-se
a um canto, no fundo, e ficava a ouvir o pastor. Com o tempo, começou
a reconhecer as pessoas; alguns até a cumprimentavam com um movimento
de cabeça. Ali eram todos muito atenciosos, principalmente o pastor.
Um dia, em sua casa, durante o almoço, ela chegou a citar por duas
vezes algumas frases proferidas por este último, numa de suas litanias.
Tábatha preocupou-se:
"Minha
filha, será que você não está levando muito
a sério esse seu trabalho?"
"Deixa
ela", replicou Samantha, com dissimulada satisfação. "Ela
está aprendendo coisas importantes."
Sem
responder, Frida apenas sorriu e, levantando-se, foi preparar a comida
do coelho. Afinal, o que diria? Que apesar do aparente fanatismo das pessoas
que conhecera, finalmente encontrara um discurso sobre o amor baseado
em valores sólidos e próprios da sua cultura? Diria pra
mãe que estava cansada de não entender o Baghavad Gïta
e os hexagramas do I Ching? Que a possibilidade de reencarnar-se neste
planeta mais mil vezes era uma idéia terrível e angustiante?
Não, era melhor calar-se. Ela queria apenas acomodar o peso da
existência em ombros infinitamente mais largos. Talvez fosse este
o ato mais sobrenatural que um bruxa pudesse tentar.
Aleister,
por seu turno, não se perturbava ao ouvi-la perifrasear longamente
sobre os cultos e os dogmas do Templo Mundial do Reino Dividido Ltda.
Era o que esperava dela. Mas não pôde esconder uma ruga na
testa quando ouviu-a dizer que estava contribuindo com o dízimo.
"Você
o quê?"
"Bem...",
começou Frida, tergiversando. "Faz parte do trabalho."
Naquele
mesmo dia, Aleister teve um insight. Sempre quisera escrever um
romance e agora tinha a idéia fresquinha na cabeça. Não
foi deitar-se enquanto não a passou pro papel. Escreveria sobre
um rapaz que, num sonho, via a cidade e a casa do homem que desaparecera
sem lhe pagar uma grande soma em dinheiro. Assim, o rapaz atravessa um
grande deserto e, ao chegar na tal casa estrangeira, descobre ser ali
um covil de ladrões, sendo, em seguida, preso pela polícia
juntamente com os demais suspeitos. Interpelado pelo delegado, conta-lhe
o sonho. O delegado, sorrindo com escárnio, diz-lhe que teve sonho
parecido, que numa cidade do outro lado do deserto havia uma casa e que,
no jardim dessa casa, havia um vaso sob o qual ocultava-se um cheque com
a quantia que lhe deviam. A diferença - enfatiza o delegado - é
que ele não fora tolo a ponto de empreender semelhante jornada,
e, após recomendar juízo ao rapaz, deixa-lhe partir. Consciente
de que o delegado lhe havia descrito a própria casa, o rapaz, ao
retornar, procura e encontra o cheque sob o tal vaso. Tudo isto depois
de muitos sofrimentos e aprendizados. É claro que Aleister sabia
que estava usurpando a idéia de um dos volumes de "As Mil e Uma
Noites". Mas isto era irrelevante. O que importava no seu livro seria
a demonstração de que, atualmente, Deus é dinheiro.
Toda a peregrinação do rapaz fora uma busca espiritual cujo
desenlace é um encontro traduzido na forma financeira. Não
que ele quisesse afirmar que a mera posse do dinheiro é uma epifania,
uma premiação com a graça de Deus. Mas que a busca
de dinheiro, hoje, confunde-se com a busca de Deus e só se encontra
satisfação num quando também se encontra o outro.
Seu livro se chamaria: O Homem que Foi Pago. Ou melhor: Diário
do Homem que Foi Pago. Ou ainda: O Diário de um Pago.
Tendo anotado essas coisas, Aleister foi dormir.
Na
manhã seguinte, Frida foi encontrar-se com Aleister, acompanhada
por Paulo, o coelho. Levava-o no colo. Queria, com isso, de uma vez por
todas, verificar se Aleister a amava ou não. Em todas as reuniões
ela se insinuou e ele não teve nenhuma atitude, seja positiva ou
negativa. Ele era tímido? Ou simplesmente não a amava? Agora
teria uma resposta. Não era para isto que adquirira o bicho? Aleister
recebeu-a com efusão:
"Frida,
sabe no que pensei a noite toda graças a você?"
A
moça sentiu o coração apertado:
"Não",
disse com ternura.
"Deus
é dinheiro!!!", gritou ele.
Frida
arregalou os olhos estupefata:
"O
quê?! Você pirou, é? E graças a mim você
teve essa grande idéia? Ai, meu Deus...", e refestelou-se numa
cadeira, choramingando sobre o imaculado pêlo de Paulo, o coelho.
"Calma,
Frida, eu vou te explicar", disse Aleister, aproximando-se solícito.
"Sai
de perto de mim, sua Grande Besta! Você é o Homem mais Malévolo
do Mundo!", berrou ela, pensando que aquele não era um príncipe
mas um dragão.
Ele
sentou-se numa cadeira e começou a contar tudo o que pensara na
noite anterior. Explicou como a busca de dinheiro se confunde com a busca
da graça divina. Que Deus é eterno e, portanto, a própria
eternidade, e que eternidade é poder dispor de todo o tempo e que,
enfim, tempo é dinheiro.
"Nas
notas de um dólar não está escrito: In God We
Trust? Isso quer dizer que o dinheiro se fia em si mesmo, afinal,
ele não é Deus?"
Aleister
continuou dizendo que as verdadeiras universidades religiosas são
pagas, porque só aceitam quem tem Deus consigo.
"O
bem público e gratuito é uma heresia. Apenas semeiam a preguiça,
a indolência e o ócio. E todos sabem que este é a
oficina do diabo! "
Frida
estava comovida:
"E
o que eu disse pra você pensar em tudo isso?"
"Quando
você me contou que pagava o dízimo."
"Como
assim? O dízimo é pra ajudar os pastores a construir mais
templos, e a levar a palavra de Deus a todos os lugares."
"Sim,
e pra estimular os fiéis com o exemplo que dão de serem
homens bem sucedidos, graças unicamente à fé de cada
um deles."
Os
olhos de ambos marejaram. Estavam emocionados, compartilhavam um momento
de revelação. Sem se preocupar com Paulo, o coelho, Frida
levantou-se, segurando-o com uma mão, e, com a outra, cingiu o
pescoço do professor, que se levantou.
"Eu
te amo", disse Frida e, antes que Aleister tivesse qualquer reação,
beijou-o.
De
repente uma espessa fumaça preencheu a sala e alguém surgiu
entre o casal, pisando nos pés de ambos.
"Perdón...",
disse o intruso.
Aleister
e Frida, assustados, pularam cada qual prum lado. Quando a fumaça
se dissipou, puderam ver o rosto do visitante. A moça nem sequer
notara o sumiço do seu coelho.
"Mi
nombre es Pablo", continuou o homem, "Pablo Conejo."
Os
dois olharam-se com assombro:
"É
ele!", disseram em coro. "O feiticeiro!"
"Mago,
por favor, mago...", corrigiu Pablo, o qual trajava uma roupa de lugar
e época remotos. Tinha um cavanhaque grisalho, estatura média,
os olhos de quem nascera a pelo menos dez mil anos atrás e o ar
de quem esconde muitos segredos.
Durante
alguns segundos, ninguém soube o que dizer. Aleister limitou-se
a fazer um gesto para que todos se sentassem. Mas foi Pablo quem rompeu
o silêncio:
"Creo
que les debo una explicación para lo que acaban de presenciar...",
começou ele; e, então, contou tudo o que lhe passara 682
anos antes. Disse que, em 1312 d.C., ele não passava dum reles
tempestarii, um andarilho que - ao passar pelos povoados da Espanha
medieval - extorquia ouro e prata, ameaçando as populações
locais de provocar terríveis tempestades se não o pagassem.
Frida, que não compreendia aquele espanhol enrolado e ceceoso,
não estava entendendo nada do que Pablo dizia. Já Aleister,
de olhos arregalados, não apenas compreendia como também
fazia anotações num bloco de papel. Aquilo tudo era extraordinário.
"Pero,
en aquel año, todo cambió...", prosseguia o mago. E relatou
como conhecera um famoso alquimista da época, um certo Arnaldo
de Villanueva, o qual, fugindo da Inquisição e particularmente
do Arcebispo de Tarragona - que havia queimado seus livros em praça
pública - refugiou-se com ele em Ponferrada. Pablo residia em tal
cidade havia já alguns anos, pois ali podia facilmente contatar
outros magos, os quais - disfarçados de peregrinos que se dirigiam
a Santiago de Compostela - eventualmente se reuniam para trocar conhecimentos
ocultos e realizar sabás. Nos quatro meses que se seguiram, Pablo
e Villanueva tornaram-se grandes amigos. Quando se separaram, Pablo estava
mudado: aprofundara-se no estudo esotérico e já não
tinha com a magia aquela postura leviana de que tanto abusara anteriormente,
ao ameaçar os incautos com seu maleficium. Além do
mais, aprendera a transmutação dos metais e dispunha de
todo o ouro que quisesse. Tal afirmação fez Aleister pular
da cadeira.
"O
que foi que ele disse?", perguntou Frida, curiosa.
"Nada
de importante, não se preocupe..."
Pablo
Conejo encerrou sua narrativa repetindo a história que Aleister
já conhecia: Em 1340 - após escrever um livro no qual não
apenas revelava segredos alquímicos, mas também fórmulas
rituais da seita secreta a que pertencia - foi transformado num coelho.
Foi a maneira usada pelo Grão-Mestre daquela seita - a Orden
de la Estrella Zancuda que Alumbra Nuestras Nalgas - para vingar-se
dele. E assim viveu até aquele momento, de mão em mão,
fugindo dos famintos e dos caçadores, até encontrar um desejo
que pudesse ajudar a realizar. Foi o preço que pagou por haver
desejado a fama às custas de segredos seculares.
"Sim",
disse Aleister, pensativo, "um desejo foi realizado..."
Ouvindo
isso, Frida levantou-se sorrindo e aproximou-se do ser amado, afagando-lhe
os cabelos. Sim, seu desejo de ser correspondida fora satisfeito. Aleister,
no entanto, tornou a levantar-se abruptamente, puxou Pablo pela mão
e dirigiu-se até a porta. A moça não entendeu bulufas:
"Onde
vocês vão?!", indagou.
"Quando
eu voltar, te conto algo que não pude dizer por causa do Pablo."
"Mas..."
"Tá
tudo bem, ele vai me ajudar muito", continuou Aleister. "Mas primeiro
vou arranjar umas roupas novas pra ele"; e saíram.
Frida
procurou pelo professor durante todo o dia e toda a noite, não
o encontrando nem mesmo em casa. No dia seguinte, pela manhã, ele
tampouco apareceu para a reunião que haviam marcado. O que teria
acontecido? Pablo teria feito algo com Aleister? Era melhor nem pensar,
ou seu coração não agüentaria. Provavelmente
Aleister o teria levado para conhecer nossa época, agindo como
uma espécie de cicerone do futuro. Não estavam na cidade
mais futurista do mundo? Grande bosta o futuro então, pensava Frida.
O jeito era continuar seu trabalho. No dia seguinte, com certeza, ele
apareceria.
A
moça dirigiu-se, pois, até o Conic, onde localizava-se o
Templo Mundial do Reino Dividido Ltda. que costumava freqüentar.
Era engraçado imaginar que aquele espaço fora, um dia, o
Teatro Dulcina, e que, ali, representava-se anteriormente outro gênero
de espetáculo, aquele no qual os atores, ao final, tiram as máscaras.
Hoje, todos aqueles personagens que ali se encontram não tiram
a persona nem sequer pra tomar banho. Houve época em que
pelo menos os pastores, após os cultos, abandonavam suas caracterizações.
Mas atualmente, com tantas câmeras escondidas - profissionais ou
amadoras - era melhor não arriscar. Ninguém se esquecia
daquele pastor da alta cúpula do Templo que fora filmado num prostíbulo,
em plena ação pecaminosa. Se ele tivesse sido mais carinhoso
com a moça, teria descoberto a câmera que ela tinha no umbigo.
"Não
vai ter culto hoje?", perguntou Frida a um Guerreiro de Cristo, que, aliás,
guardava a entrada do templo e tinha nas mãos um cassetete em forma
de cruz.
"Foram
todos pra inauguração do novo templo na 106-Sul", disse
ele.
"106-Sul?!"
"Isso,
onde era o antigo Cine Brasília. O Bispo Antônio Rada de
Jesus estará lá."
A
estudante ficou pasma. Adeus festivais de cinema, pensou. Pelo menos teria
a chance de assistir a um culto do líder daquela igreja. O Bispo
era famoso por sua pregação sedutora e por seu ardor místico.
Talvez pudesse finalmente completar a coleta de dados para escrever a
monografia. Aleister ficaria satisfeito.
No
novo templo da 106-Sul, muita gente já se acomodava pelas escadas
e corredores, pois os assentos estavam todos ocupados. Frida aproximou-se
o mais que pôde do palco-altar. Sentou-se no chão. Em pouco
menos de dez minutos, o Bispo Rada de Jesus surgiu diante de seus fiéis.
Tinha um ar severo e paternal. Estava cercado por alguns de seus asseclas.
"Meus
filhos!", começou ele. "Estamos aqui reunidos para juntos darmos
nossa benção a nosso novo templo. Sim!", gritou. "Estamos
todos rejubilados por esse momento de comunhão e de vitória.
Nosso desejo foi realizado, não foi? Na verdade, um outro desejo
que eu trazia no coração foi mitigado, o desejo de encontrar
um bom homem para tornar-se pastor desse templo..."
Deu
uma pausa para causar suspense e apreciar o impacto de suas palavras.
No templo observava-se um silêncio absoluto.
"Meus
filhos!", tornou a bradar o Bispo Rada de Jesus. "Quero lhes apresentar
o homem a quem darei - assim como Cristo deu a Pedro a chave do Seu Reino
- as chaves do maior templo do Distrito Federal. Aqui está o Pastor
Aleister Crowley!"
Por
pouco Frida não desmaia. Ficou besta ao ver o seu orientador, acompanhado
por Pablo Conejo, subir ao palco-altar. Aquilo era demais pra sua cabeça.
Há tempos não recebia um golpe tão certeiro quanto
aquele que o Bispo Rada lhe dera. Então era aquele o desejo realizado.
A moça nem sequer conseguiu ouvir o que Aleister dizia aos fiéis.
Limitava-se a encará-lo absorta. Então Deus é dinheiro...,
pensava consigo. Que absurdo! Antes que o culto chegasse a término,
porém, deixou o templo. Lá fora, ainda presa de intensa
letargia, admirou uma última vez o ex-cinema que tanto freqüentara.
Foi ali que assistira a uma reapresentação do filme Entre
Deus e o Pecado, com o magnífico Burt Lancaster.
A
estudante saiu caminhando lentamente. Atravessou o eixinho W e dirigiu-se
para o eixão, onde tomaria um ônibus pra casa. Eram dezoito
horas e o trânsito, como de costume, intenso. Mas Frida quase não
via os carros. Ao chegar na passagem de pedestres, no centro do eixão,
viu apenas uma bonita borboleta azul. Deve estar indo pra casa dela, pensou,
sem parar de caminhar. Assim que começou a atravessar a outra metade
do eixão, foi arrebatada por um carro. A estudante não viu
mais nada.
Quando
Aleister se inteirou daquele terrível acidente, chorou uma semana
seguida. Não sabia, até aquela data, que estava apaixonado
pela estudante. Frida sempre se insinuou muito, mas aquilo apenas o irritara.
Não gostava desse tipo de mulher. E ainda havia aquelas coisas
enormes na cabeça dela que não o agradavam.
"Todavía
puedes conocer otras mujeres...", disse-lhe Pablo; e o ex-professor entendeu
que ele se referia ao sentido bíblico da palavra conhecer.
Neste caso, o mago espanhol não estava totalmente desprovido de
razão. Mas, após aquele incidente, ele jamais se uniria
em matrimônio com outra mulher. Isso não. Seu espírito
ainda pertencia à pobre Frida. Agora, seu corpo... bem, já
era outra história.
Assim,
além de dedicar-se aos cultos do Templo Mundial do Reino Dividido
Ltda., o pastor Aleister também passou a gastar seu tempo na conversão
de marias-madalenas:
"Ai,
pastor, seus óculos escuros tão machucando minhas coxas...",
exclamou a pecadora. "Será que o senhor não podia tirá
eles não?"
Aleister
ficou desconfiado. Mas após examinar o umbigo da mulher, viu que
seus temores eram infundados. A imprensa não tinha como encontrá-lo
ali. Tirou, pois, os óculos e continuou a pregação
oral:
"Hmm...
hmm... slupt..."
Qual
não foi a surpresa do pastor Aleister ao ver suas imagens - num
close extremamente sórdido e vulgar - durante um respeitado programa
jornalístico. Quase não acreditava na ousadia dos jornalistas
por esconder uma câmera em semelhante local, um verdadeiro desrespeito
com o corpo da mulher. E aquelas cenas, em pleno horário nobre,
derrubaram o pastor. Era extremamente chocante a visão, em determinado
momento, daquele 666, tatuado nas costas da sua mão, indo
e voltando. O Bispo Rada de Jesus expulsou-o e admitiu, em público,
o erro de haver recrutado, como sequaz, um acadêmico hipócrita,
desvirtuoso e herege.
"O
intelecto é um diabo que devemos manter sob correntes!", bradou
num de seus cultos.
Aleister
sentia-se literalmente no inferno. Sua vida fora jogada na lama, apedrejada
e escarrada. Não apenas pela imprensa mas ainda por seus amigos,
ex-colegas de docência e parentes. Apenas Pablo permanecia ao seu
lado - o que, aliás, muito o atormentava. Afinal ele fora um dos
pivôs de sua entrada no Templo. Se não fosse o fato de o
mago ser capaz de transformar qualquer metal em ouro, jamais teria aceito
a proposta do Bispo. Tornar-se sócio daquela empreitada religiosa
não lhe parecia, a princípio, muito seguro. Mas era muito
mais certo do que a possibilidade de manter Pablo, com sua capacidade
de produzir ouro, a seu lado. E, afinal, Deus era dinheiro, não
era? Agora, o que mais minava seu espírito era sua incapacidade
de desculpar-se ou mesmo de falar com Frida. Suas almas estavam muito
distantes. Foi, então, num domingo à tarde, que o ex-pastor,
enlouquecido pela quantidade de remordimentos, se atirou do alto da Torre
de TV.
Frida,
ainda no leito do Hospital Sarah Kubitschek, recebeu a notícia
da morte de Aleister com os olhos úmidos. Apesar de tudo, ainda
o amava. Não entendia por que ele só a visitara quando ainda
estava desacordada. Será que ele sentiu alguma repulsa quando descobriu
que ela estava paraplégica? Será que ele realmente não
a amava? Na verdade, a moça só conseguiu compreender toda
aquela série de acontecimentos, quando Tábatha, sua mãe,
algumas semanas depois, lhe trouxe um livro.
"Meu
Deus!", repetia enquanto folheava a brochura.
O
livro fora escrito por Pablo Conejo e, de forma romanceada, tratava da
relação dela com Aleister e de todos os terríveis
fatos ocorridos. Para Frida, aquilo era uma canalhice da parte do espanhol.
Além de expor sua vida particular, ele ainda dera um título
demasiado cafona pra obra: Na Margem do Lago Paranoá Eu Sentei
e Chorei. Mau gosto maior, impossível...
Frida,
Tábatha e Samantha, após intensos debates, chegaram a uma
conclusão. Deveriam dar um jeito naquele bruxo fossilizado. E só
então a estudante ouviu a revelação que a mãe
e a avó tinham pra lhe fazer, havia já muitos anos: as três
eram feiticeiras. Aquilo foi outro grande susto na sua vida. Ela era de
fato o que no íntimo sempre quis ser. Por que nunca lhe disseram
antes?
"Seu
avô nos condicionou a agirmos como pessoas normais, não podíamos
contrariá-lo", disse Tábatha.
A
avó concordou com um movimento de cabeça:
"E
eu, num determinado momento, vi que ele tinha razão. A vida não
tem graça se pudermos resolver tudo com passes de mágica."
"Mas
certas coisas podem ser melhor arranjadas se usarmos um pouco de magia",
contestou Frida, indignada.
"É
por isso que não vamos deixar aquele médico esquisito operá-la",
disse Samantha. "Nós podemos fazer bem melhor..."
"Num
piscar de olhos você estará andando", acrescentou Tábatha.
"Vamos apenas esperar um pouco pra que ele não fique pensando que
ocorreu algum tipo de milagre."
Depois
Frida ouviu de ambas a explicação do porque apenas ela deveria
fazer algo contra o mago. Como ela fora a única afetada diretamente,
apenas ela poderia aplicar o castigo. E deveria fazê-lo com sabedoria,
senão - da mesma maneira que poderia ocorrer às outras duas
caso tomassem suas dores - o sortilégio também recairia
sobre ela.
Naquele
dia, Frida foi dormir tranqüila. Não precisava mais se preocupar
com sua saúde, nem com suas crenças, nem com sua verdadeira
natureza - era mesmo uma bruxa! - ou mesmo com o destino do Pablo Conejo.
Ele, evidentemente, não perdia por esperar. Desta vez seria transformado
numa galinha ou, quem sabe, num Cachorro-Urubu. O tal mago, aliás,
também estava bastante satisfeito com sua nova carreira de escritor.
Muito embora todo o trabalho de escrever lhe exigisse apenas um estalar
de dedos. Inclusive já planejava seu novo livro: As Warquírias.
O livro contaria a história de dois caipiras que vão pra
capital, e se tornam duas Drag-Queens que adoram se vestir de anjos. Uma
beleza de livro. Agora, nada tranqüilas estavam Samantha e Tábatha...
Afinal, como diriam pra menina que - após as plásticas que
ambas sofreram - já não podiam mover respectivamente a boca
e o nariz para efetuar as mágicas? Claro, Frida podia realizar
os passes de mágica por si mesma, isto é verdade. Contudo,
restava uma questão: no que se referia ao ponto do corpo usado
para desencadear a magia, a menina possuía os genes do tataravô
ou da tataravó? Sim, pois, se houvesse puxado esta última,
deveria mover o dedão do pé esquerdo, o que era impossível.
Mas se carregasse os genes do tataravô bastava abanar as orelhas,
coisa que ela tinha de sobra. Que o diga Aleister Crowley de Souza...
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Nota: Antes que você, leitor(a),
caia na obtusidade de me colocar como antagonista de certo autor já
consagrado, pense no seguinte: este livro faz parte da minha lenda
pessoal... :-))
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