Golem, o goleiro
por Yuri V. Santos
Ninguém
compreendia os estranhos esquemas de ataque e defesa elaborados pelo técnico
Loew, professor aposentado do Departamento de Educação Física, e responsável
pela equipe oficial de futebol da UnB. Além de comunicar-se através dum
português engrolado, costumava ainda utilizar-se de termos demasiado herméticos
para que seus jogadores encontrassem qualquer significado.
"Você serr yesod, Rodrrigo. Tem que darr coberturra
ao centrro avante."
Apesar de o time ser composto por alunos e professores
da universidade - seres pretensamente mais sábios - ninguém localizava
a origem obscura de palavras tão extravagantes.
"E você serr netzah, Carlos. Eu só non saberr
ainda qual sefira serr tepheret, o punim[1]
do time."
Os jogadores o ouviam com os olhos esbugalhados
e a boca aberta. Quase babavam nessas ocasiões. Da mesma forma que não
interpelavam o técnico sobre por que eram chamados de "sefira", "sefirots",
"shnorrer"[2],
"shlump"[3]
ou "umgliks"[4], tampouco questionavam aqueles treinos
singulares. Afinal, tinham apreço pelo velho Loew. Aquele solidéu cobrindo-lhe
o cocuruto grisalho inspirava respeito. Talvez fosse padre ou coisa parecida.
Que o time jamais ganhasse uma só partida, parecia assunto completamente
distinto.
"Non poderr prroseguir sem descobrir o tepheret
do equipe. Melhorr consultar o Sepher Jetzira", murmurava antes
de cancelar mais um treino.
Jorge, estudante de direito e membro da equipe
de futebol, resolveu investigar a vida pregressa do técnico. Partindo
de algumas evidências não muito confiáveis, acabou, mesmo assim, por confirmar
suas suspeitas. Loew era uma daquelas figuras que a gente sempre vê no
cinema e na TV, mas às quais não atribuímos existência real. O professor
- pasmem - era um judeu legítimo! Isso mesmo, um judeu. E mais: era tão
judeu que ainda era rabino. Jorge, no treino seguinte, teve que se controlar
para não pedir um autógrafo. Imagine, pensava, um judeu de verdade...
E em Brasília! Quem diria...
No dia seguinte, conversando com os colegas de
time, pôde reunir mais informações. Descobriu, então, que o professor
Loew imigrara de Praga - na atual República Tcheca - havia já muitos anos,
e que pertencia à comunidade judaica de Brasília. Alguém acrescentou ainda
o detalhe de que o técnico era um grande estudioso da Cabala.
"Meu Deus, ele é macumbeiro!", exclamou um professor
de Letras, evangélico de carteirinha e membro da Igreja Mundial S/A.
Decidiram pesquisar aquele estranho fato e, por
fim - após averiguar a inocência de tão exótico hobby - deram-se por satisfeitos.
Mas ainda havia um problema: aquele misticismo hebreu - ou metafísica
judaica, pouco importava o termo - estava turvando a visão estratégica
do professor Loew. Era evidente que a equivalência entre o número de elementos
da árvore cabalística - os sefirots - e o número de jogadores de um time
de futebol - algo por si só passível de contestação - não passava de pura
coincidência. Será que ele não percebia que todo aquele sistema de crenças
apenas o impedia de desenvolver um time de verdade?
"Ele vai é a cabala com nossa seleção!", ironizou
alguém.
O assunto estava encerrado. No dia seguinte escolheriam
um novo técnico e, após agradecer ao professor Loew por sua dedicação,
lhe dariam o bilhete azul. Aquilo não era anti-semitismo, nem tampouco
uma arbitrariedade. Era apenas uma necessidade de justiça e de vitórias
no gramado.
No treino seguinte, porém, depararam com um professor
Loew tão exultante e tão alheio à nossa língua que não conseguiram lhe
transmitir qualquer veredicto. Tentavam falar-lhe mas ele - não se sabe
se propositadamente - esquivava-se às interpelações, tartamudeando qualquer
coisa na sua língua materna. Quando finalmente se deram por vencidos,
os jogadores passaram a ouvir suas excitadas deliberações. Estavam resignados
a isso. Loew, então, afirmou ter desvendado quem seria o tepheret - o
coração e alma do time:
"O arqueirro! O arqueirro!", repetia.
"Quem?!", perguntou Jorge.
"Ele tá falando do goleiro", sussurrou alguém.
Logo surgiram suspiros de todos os lados. Alguns
conformados, outros de pura irritação. Ninguém estava afim de novamente
enfrentar aquele delírio hermético do rabino. Era preciso tomar uma providência.
"Mas, professor, ninguém aqui é bom no gol", começou
Jorge. "Todo mundo sabe que isso é um baita problema. Mas, e daí? Não
adianta benzer um camarada e botar ele lá..."
Loew estava maníaco:
"Eu ya encontrrar arqueirro bom, meu sefira, um
muito bom, um shoyn[5].
Eu mostrrar parra vocês", e foi até a arquibancada de onde trouxe um rapaz
caboclo, cor de terracota, bastante alto e forte. Era realmente um muro,
mas tinha os olhos vidrados e uma postura tão rígida que, a princípio,
pensou-se que era cego. Assim que tal suspeita tornou-se generalizada,
os demais jogadores olharam-se em meio a um mudo constrangimento. Agora
o técnico estava doido de vez. Um goleiro cego, vê se pode.
"Todos os sefirots parra o grramado! Horra do
trreino!", berrou Loew.
Aquele seria o último treino, decidiram em silêncio.
Depois de golearem aquele zumbi de chuteiras, nunca mais poriam o pé naquela
cancha. Nem mesmo dariam satisfações. Técnico mais maluco aquele...
"Hmm...", suspiravam.
Todavia, para espanto geral, vivente algum conseguiu
marcar sequer um gol naquela parede humana. Nem de pênalti. O novo goleiro
não deixou escapar bola alguma. Foi realmente fantástico. Após o treino,
todos correram para cumprimentá-lo.
"Demais, cara!"
"Nunca vi isso antes! Domingo que vem, o time
da UNICAMP vai dançar na nossa mão", disse alguém, referindo-se ao campeonato
Taça Universitária.
"Como é que você se chama mesmo?", indagou outro.
O goleiro permanecia rígido, com uma cara de poucos
amigos.
"Golem", interveio o técnico. "E non adiantar
conversarrem com ele. Ele serr mudo."
Todos se entreolharam desconfiados. Coisa mais
esquisita. Pensaram que o rapaz fosse cego mas era mudo. E ele ainda tinha
uma marca curiosa na testa. Parecia um anagrama formado pela interseção
de duas letras tatuadas - talvez as iniciais do nome da namorada - mas
assemelhava-se mais a uma indiscreta cicatriz. Era melhor nem perguntar.
Aquele sujeito, além de possuir bíceps proeminentes, parecia ser de maus
bofes.
O primeiro jogo com aquele novo goleiro foi uma
maravilha. A UnB ganhou de três a zero da UNICAMP. O tal do Golem foi
incrível, tendo efetivado defesas memoráveis. Contudo, não parecia pertencer
a uma equipe. Ficava ali, no gol, altivo como quem estivesse num trono
e, aparentemente, alheio ao resto do campo. E não comemorava quando seus
companheiros marcavam algum gol. Não se via ao menos uma veleidade de
sorriso. Na verdade, ao fim da partida, pareceu não se aperceber da vitória
do próprio time. Era um zumbi extremamente soturno.
A coisa andou bem nos primeiros jogos. De modo
geral, ganhavam folgadamente sem sofrer gols. Quando a performance decaia,
Golem segurava as pontas. Tinham então tempo e oportunidade para se recuperar
e vencer. Mas num dos últimos jogos, antes das semifinais - uma verdadeira
batalha contra o time da UFRJ - Golem deu mostras de um comportamento
belicoso que ameaçava o bom andamento da equipe. Até o professor Loew
ficara preocupado com aquilo. Era só um jogador adversário penetrar na
grande área, que o Golem quase lhe quebrava as pernas. Ele preferia defender
um pênalti a permitir que alguém respirasse diante do gol. Quase foi expulso
de campo. Antes que tal ocorresse, foi substituído pelo professor Loew.
Afinal, o Golem acabara de atacar um de seus próprios companheiros, o
qual viera receber uma saída de bola. Assim já era demais.
"Quebra ele!!! QUEBRAAA!!!", berrava a torcida
adversária.
No banco, Golem encarava seus companheiros tão
ameaçadoramente, que estes perdiam a motivação de entrar em campo. E durante
o intervalo, os titulares sentiram a mesma rapinagem psíquica por parte
do invicto goleiro. Era como se aqueles olhos baços fossem imãs que lhes
sugassem o ânimo e a vontade. Naquele dia, Golem não voltou ao campo.
Seu time perdeu por cinco a dois.
"É tudo culpa desse boneco de vídeo-game!", protestou
Jorge, indicando o goleiro com a cabeça. "Não passa dum pervertido, dum
tarado por filtros de barro..."
"Como é que é?!", perguntou Carlos, outro dos
jogadores.
Jorge contou então a cena que presenciara na noite
anterior. Narrou a maneira como o Golem entrou no alojamento, trazendo
nos braços - como se fosse uma mulher - um enorme filtro d'água de cerâmica.
A seguir, deitou-o ao seu lado na cama e sugou-lhe as velas e a torneirinha,
gemendo como um gato no cio. Isso sem falar do último ato daquele teatro
erótico.
"Que viagem, Jorge! Deixa de onda..."
"Tô falando sério, galera. Esse carinha aí não
bate bem das bolas não."
O técnico, a um canto, ouvia a tudo impassível.
Sua criatura tinha natureza rebelde, mas tal comportamento não passava
da idiossincrasia dum jogador genial. Ele ainda tinha chances. Só precisava
de tempo. E, quem sabe, duma mocinha da sua própria espécie, uma mocinha
saída da lama.
Jorge, porém, por conta própria, iniciou uma investigação
exaustiva da identidade daquele sujeitinho esquisito. Mas tudo o que descobria
apenas liquidava com as poucas informações angariadas anteriormente. Verificou
que Golem não era aluno da universidade. Provavelmente, o dado - de que
ele seria estudante de economia - não passava duma tentativa do técnico
de justificar o caráter truculento e bronco do goleiro. Tampouco encontrou
amigos ou parentes daquele misterioso personagem. Por fim, intrigado,
Jorge entregou os pontos. Não sabia nada sobre o Golem.
Dias depois, no decorrer de um dos treinos, Jorge
reuniu os companheiros com o pretexto de fazer uma foto do time. Assim,
em meio às demais fotografias, conseguiu uma do rosto do Golem. Acreditava
que isto seria de grande ajuda. Munido de uma lupa, analisou minuciosamente
a face do goleiro, e concluiu que aquela marca, que este trazia na fronte,
não era senão uma tatuagem. Estimulado por sua atividade detetivesca,
Jorge reuniu alguns endereços de conhecidos tatuadores brasilienses e
foi-lhes no encalço.
Os primeiros três tatuadores que consultou não
foram de grande ajuda. Não conheciam o indivíduo da foto, nem saberiam
informar quem teria feito semelhante tatuagem. Enquanto um deles rotulou
aqueles traços de "tatoo tribal", outro chegou a questionar se aquilo
realmente seria obra dum tatuador:
"Isso tá mais pra ferro de marcar gado. Um peão
deve ter fritado a testa desse cara."
Mas foi apenas em Taguatinga que Jorge encontrou
quem lhe desse uma luz:
"Se são ou não tatuagens, eu não sei. Mas que
são duas letras do alfabeto hebraico, disso eu tenho certeza."
"Sério mesmo?", indagou Jorge, incrédulo.
"Pô, véio, tatoo é cultura. Tá achando que eu
sou burro?"
O tatuador, então, lhe garantiu que aquelas eram
as letras ghimel e lamed, e que deveriam ter algum significado
místico para o goleiro. Jorge montava mentalmente as peças daquele quebra-cabeça.
Isto estava mais divertido que aquele jogo de detetives, em CD-ROM, que
comprara no ano passado. Era evidente que o professor Loew estava por
trás de todo aquele mistério. Era preciso interpelá-lo.
Jorge, porém, só voltou a se encontrar com o técnico
minutos antes da partida semifinal. Haviam sido classificados graças a
dois gols feitos pelo próprio Golem. Na ocasião, a equipe perdia de dois
a um para a USP, quando então o professor Loew decidiu devolver o Golem
à sua posição. Como este seguia vampirizando o ânimo do próprio time,
seus companheiros não logravam virar o placar. Sentiam-se, antes, mais
derrotados a cada minuto. Foi aí que o Golem - sem sair da grande área
- chutou duas bolas certeiras para dentro do arco adversário, com um intervalo
de poucos segundos entre um gol e outro. Comemorou, destruindo uma das
traves laterais do próprio gol que defendia, com os dentes, e quebrando
algumas costelas dum lateral do seu time, abraçando-o. Para espanto da
torcida uenebense - as namoradas de dois dos jogadores e o filho do professor
evangélico - o heróico goleiro não saiu de campo carregado pelos companheiros.
Estes, aliás, olhavam-no com ódio. Teriam que continuar jogando junto
àquele monstro.
"Professor, o senhor não pode mais manter essa
aberração em campo", começou Jorge. "O senhor ainda não percebeu como
ele rouba a vontade da gente? Ninguém mais quer ganhar..."
O professor olhava o chão, silencioso.
"Esse cara", prosseguiu o estudante de direito,
"não é normal, eu sei disso. Aquela coisa que ele tem gravada na testa..."
Loew o olhou assustado. Será que fora descoberto?
"Sim, professor, eu sei de tudo."
Jorge estava mentindo. Mas notara o efeito de
suas palavras no rosto do técnico. Seria um bom promotor... Agora só precisava
fazê-lo falar.
"Por Melquisedec! Você saberr de todo!", suspirou
Loew. E deixou-se cair num banco do vestiário. "E agorra? E agorra? Zayer
klieg![6]"
Jorge lhe disse que poderia confiar nele. Era
só se abrir e contar os detalhes. Afinal, ele estava ali para ajudar.
"Foi assim...", disse Loew, iniciando a narrativa.
Logo, contou como construíra um grande boneco de barro vermelho, tal como
Adão, e de como - através de sua compreensão da Cabala - insuflara-lhe
alma e um princípio mental, efetivando tal ato com a gravação das letras
ghimel e lamed na fronte do Golem. Ele não imaginara que
sua criação pudesse rebelar-se daquela forma. Não calculara que o autômato
pudesse roubar a energia alheia e multiplicar seu poder. Sua única intenção
era dar um tepheret ao time. E concordou que deveriam devolvê-lo
ao nada. Para isso teriam tão somente que apagar aquelas duas letras.
Assim, o pó retornaria ao pó.
Momentos depois, os jogadores, ainda no vestiário,
iniciavam o aquecimento. Havia grande movimentação, algum nervosismo.
Aquele jogo seria decisivo, se vencessem estariam na final. A um canto,
o Golem - extremamente tranqüilo e alheio - olhava-se num espelho. Após
ver-se no caderno de esportes do Correio Brasiliense, alguns dias
antes, aquela atividade tornara-se sua nova obsessão. Apreciar a própria
imagem parecia torná-lo ainda mais forte. E, claro, era preciso cuidar
bem dessa imagem. Por isso tinha aquele creme hidratante na mão. Logo
adiante, o professor Loew dava suas últimas instruções e, no entanto,
ninguém o tomava em conta - afinal, tinham um super-homem como goleiro.
Para eles, pouco importava todo aquele falatório. Mesmo se quisessem,
tinham pouco a fazer. No fundo, apenas isto: não se aproximar do próprio
goleiro em hipótese alguma. O técnico, por sua vez, tampouco prestava
atenção ao que dizia. Sua mente era presa de uma única idéia: levar a
cabo o plano de Jorge.
Foi o que fizeram. Quando os jogadores já se dirigiam
ao campo, o professor pediu para que Golem e Jorge o aguardassem bem ali
que ele já regressaria. Tinha algumas instruções especiais para ambos.
Os dois jogadores, então, sentaram-se lado a lado, esperando a ladainha
do velho.
"Você sabia que tem uns olheiros do Barcelona
aqui?", incitou Jorge.
Golem, que - como já disse - era mudo, moveu negativamente
a cabeça.
"Eu ouvi dizer que eles vieram te ver...", prosseguiu
Jorge.
Os olhos do Golem brilharam. Seria verdade? Jorge,
por seu turno, sabia exatamente em qual ferida meter o dedo.
"Vão tirar muitas fotos. E até filmar."
O Golem, mirando-se no espelho, voltou a ajeitar
os cabelos.
"Putz, cara", exclamou Jorge. "Você tá com uma
espinha enorme na testa", e lhe indicou com o dedo a suposta erupção.
O técnico, oculto atrás da porta, ouvia tudo atentamente. O goleiro, visivelmente
contrafeito, agitou-se tanto que Jorge - e até mesmo o professor Loew,
ali perto - viram-se repentinamente mais fracos. O Golem seguia vampirizando-os.
"Se você quiser, eu posso espremer pra você. Vai
ficar uma beleza..."
Pela primeira vez, Jorge viu um esboço de sorriso
no rosto do goleiro. Este, pois, inclinou-se na sua direção, oferecendo-lhe
a fronte. Sem pensar duas vezes, Jorge, com o polegar da mão direita,
borrou aquelas mágicas letras que davam vida ao monstro de barro. O Golem
transformou-se instantaneamente numa estátua de terracota.
"Me ajuda, professor! Rápido!", fez Jorge.
O técnico aproximou-se um tanto atordoado. A visão
do autômato sem vida era uma pontada no coração. Que dolorido ver um filho
morto... Nebbish[7]...
Esforçou-se para não derramar lágrimas diante de Jorge. Era preciso manter
a compostura.
"Anda, professor."
Enrolaram o goleiro numa lona plástica e o esconderam
no armário de Jorge. Depois do jogo o colocariam no porta-malas do carro
que alugaram, e o levariam para um lugar seguro.
Quando os demais jogadores viram o goleiro reserva
entrar em campo, ficaram um tanto confusos. Jorge contou-lhes que o Golem
fora suspenso e que provavelmente abandonaria a equipe. O receio inicial
foi dando lugar a uma crescente confiança. Agora eles poderiam ser realmente
um time. A debilidade ou a força que experimentariam não dependeria de
um único indivíduo. Aquele estado de coisas foi tão positivo que lograram
vencer a equipe oponente por três a um. Foram classificados para a final.
"Muito bom, meus sefirots, muito bom", repetia
o técnico, pusilânime.
No fim daquele dia, receberam uma notícia desagradável.
O time da UFRJ - o mais terrível adversário que haviam enfrentado - ganhara
a outra partida semifinal e também disputariam a Taça Universitária. É
certo que quando as duas equipes se enfrentaram anteriormente - e a UnB
perdeu por cinco a dois - o Golem havia botado o jogo a perder. Quando
fora substituído, levara para o banco de reservas toda a energia dos companheiros.
Mas agora seria diferente. Eles estavam longe do monstro e novamente unidos.
"Vai ser mole, galera", insistia Jorge.
Já o professor Loew mantinha-se calado. Desistira
de encontrar o tepheret do time. Vay'z mir[8], dizia
para si mesmo.
Passada uma semana, chegara o grande dia. Os jogadores
da UnB estavam confiantes, fizeram bons treinos e o novo goleiro titular
havia melhorado bastante. Aquele tal do Golem era coisa do passado. Ninguém
mais pensava nele. Este, por sinal, fora reduzido a pó por Jorge, o qual,
a seguir, devolveu a terra vermelha ao rabino Loew, fazendo-o jurar que
não repetiria tão absurdo ato criador. O técnico concordou humildemente.
Jorge deliciava-se: não seria um promotor, senão um grande desembargador.
Infelizmente, logo no começo do primeiro tempo
da partida final, a equipe da UnB viu-se em sérios apuros. E o que é pior:
dentro da própria casa, afinal, o jogo acontecia no estádio Mané Garrincha,
no Plano. Logo de saída sofreram dois gols seguidos. O técnico apenas
observava resignado e calado. Aonde é que ele havia errado? Os jogadores
da UnB passavam gradativamente do nervosismo ao desespero. Ao final do
primeiro tempo, perdiam por quatro a zero. Sentiam-se humilhados, cuspidos
e ofendidos. O que fazer?
"Se o Golem estivesse aqui...", lembrava um.
"Ah! Se eu não estivesse aqui...", lamentava-se
outro.
Jorge observava o declínio moral dos companheiros.
Aquilo era muito triste. Qual seria a atitude mais ética naquela situação?
Não sabia. Decidiu, portanto, obedecer a um impulso.
"Professor", começou, aproximando-se de Loew.
"A gente precisa trazer o Golem de volta!"
O técnico olhou-o, com pesar:
"Mas eu non terr tempo parra fazer boneco agorra.
Tarrde demais."
Mas o estudante estava decidido:
"Vem cá, professor", e Jorge levou-o até seu carro.
Uma vez lá, abriu o porta-malas e, para espanto do técnico, ali estava
o Golem, inteirinho.
"Mas... que significa esso?!", exclamou Loew.
Jorge explicou-lhe que havia guardado o autômato,
prevendo uma situação como aquela.
"Mas você me deu o terra verrmelha!"
"Era falsa."
"Mas..."
"Professor, reanima logo esse cara, vai. Depois
do jogo a gente apaga ele. É fácil. A gente só tem a ganhar. É a única
alternativa."
"Mas ele non serr tepheret, ele non darr beleza
ao time."
Jorge sentiu-se injuriado:
"Mas afinal o senhor quer ganhar ou quer jogo
bonito?! Sem essa de futebol arte! Isso é papo furado..."
O professor Loew finalmente assentiu, mas fez
Jorge prometer que realmente reduziriam o Golem a pó após o jogo. Mas
fariam isto juntos. Jorge concordou e, em seguida, prendeu grande atenção
às palavras e gestos que o rabino empregava para dar vida ao boneco. Depois
ele poderia imitá-lo. Sim, não seria apenas um grande promotor ou juiz,
mas senador da república. Como seu pai. Teria um exército de autômatos.
E também teria conta na Suíça. Abriria contas fantasmas para seus Golens,
aqui mesmo no Brasil, e lavaria todo o dinheiro que quisesse. Seu futuro
estava garantido. Mas... seria ético tudo isso? Não sabia.
No princípio do segundo tempo, os jogadores da
UnB - com os sentimentos a meio caminho entre o alívio e a preocupação
- testemunharam o regresso do Golem ao time. Este mostrava-se mais imponente
que nunca, os olhos vidrados e terríveis. A equipe da UFRJ, ignorando
a desgraça próxima, estava tranqüila, afinal o jogo parecia ganho. Quando
a bola chegou às mãos do goleiro da UnB, começou o terror. Dali mesmo,
com um forte chute, fez o primeiro gol do outro lado do campo. Ninguém
parecia acreditar nos próprios olhos. Principalmente o goleiro adversário,
sentado lá no fundo do seu gol, levado pela bola. Mas aquilo não foi nada
perto do que viria depois. O Golem quebrou as pernas de três atacantes
da UFRJ, e detalhe: tão violenta e, ao mesmo tempo, discretamente que
o árbitro não viu. Apesar dos protestos vindos do banco carioca, passou
batido. A essa altura, a UnB já havia empatado. Dois gols foram do próprio
Golem. Seus companheiros, que espertamente evitaram aproximar-se do goleiro,
mantiveram-se com energia suficiente para completar a vitória de seis
a quatro e, ainda, para comemorar.
"Por Melquisedec!", repetia o professor Loew,
em hebraico.
Após toda a festa em campo, com a entrega da Taça
Universitária e tudo mais, Jorge e o rabino ocultaram-se no vestiário.
Depois que os demais jogadores saíssem, eles tornariam a ludibriar a vaidade
do Golem e o devolveriam ao nada. Contudo, para surpresa de ambos, mesmo
depois da saída do time inteiro, não viram sinal algum do goleiro. Onde
o desgraçado haveria se metido? Procuraram-no por todas as partes durante
uma semana. Não encontravam uma pista sequer do paradeiro da criatura.
Por fim, desistiram. O técnico ficou tão pesaroso que adoeceu gravemente.
Jorge tentava sentir-se culpado pelo ocorrido, mas não conseguia. A vida
tinha dessas coisas. Mas quando, através dum jornal, finalmente descobriu
onde o Golem havia se metido, correu para informar o pobre professor Loew.
"Professor, o senhor não vai acreditar. O Golem
tá jogando no Barcelona. É, isso mesmo, no Bar-ce-lo-na. O filho da mãe...
Nem pra dar notícias. E o jornal diz que ele assinou um contrato de cinco
milhões de dólares. Uma grana altíssima prum goleiro."
O técnico, estirado na cama, parecia sorrir. Sua
última alegria, antes de falecer dias depois, desabrochou quando viu na
TV uma reportagem sobre o novo "Rei de Barcelona". Seu filho de barro
- finalmente o tepheret de um time, o kronkeh bubbeh[9]
- estava lá, na sua casa imensa, cercado por filtros de cerâmica de todos
os tamanhos. A própria casa que construíra na capital catalã assemelhava-se
a um grande filtro. Era um pastiche de Gaudí e Filtros Steffani. Jorge,
por sua vez, não viu seu futuro ruir. Na verdade, tornou-se muito mais
arguto após essa experiência. Aprendeu a não confiar em ninguém e a não
menosprezar a aparente estupidez alheia. Qualquer um, por mais que parecesse
um zumbi, podia lhe passar a perna a qualquer instante. Conseguiu, pois,
com incrível habilidade, driblar todas as CPIs que, anos mais tarde, ao
tornar-se senador, tentaram incriminá-lo. E de forma alguma guardava rancor
em relação ao antigo companheiro de time. Afinal, eram da mesma espécie.
Viviam da capacidade de minar as forças alheias. Um psiquicamente, o outro
econômica e politicamente.
(Extraído
de A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau.)
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